Como Trisha Okubo Transformou uma Demissão em uma Marca de Joias Usada 24/7
A maioria das pessoas teme ser demitida. Trisha Okubo usou isso para construir a Maison Miru, uma empresa de joias conhecida por brincos tão confortáveis que você pode dormir com eles. Sem capital de risco. Sem conexões na indústria da moda. Apenas uma engenheira formada em Stanford que identificou uma lacuna no mercado que ninguém mais estava preenchendo.
Sua história é um modelo para transformar habilidades técnicas em uma marca de consumo — e para construir um negócio que cresce por meio de lucros reinvestidos em vez de financiamento externo.
Do Vale do Silício ao design de joias
Okubo cresceu no Vale do Silício. Sua mãe foi uma das primeiras engenheiras do vale, trabalhando no setor aeroespacial enquanto enfrentava uma discriminação ainda mais explícita naquela época. Esse histórico deu a Okubo tanto uma mentalidade técnica quanto uma profunda consciência de como é a sensação de ser uma pessoa de fora.
No início, ela seguiu um caminho convencional na tecnologia. Tornou-se Gerente Global de Produtos no eBay Fashion e, mais tarde, gerenciou a página inicial do eBay nos EUA. No papel, a carreira estava funcionando. Na realidade, ela vivia uma vida dupla — estudando design de moda no Fashion Institute of Design and Merchandising em Los Angeles à noite e nos fins de semana, enquanto mantinha seu cargo de gerência de produtos durante o dia.
Quando foi demitida de um cargo de tecnologia em Londres, a indenização tornou-se capital inicial. Em vez de correr atrás do próximo cargo de gerente de produto, ela usou seu "garden leave" (período de licença remunerada) para explorar o que realmente queria construir. O design de joias venceu.
Fundando a Maison Miru em 2016
O próprio nome diz muito sobre a abordagem da fundadora. "Maison" é francês para "casa". "Miru" é a palavra japonesa para "ver". A combinação reflete a herança bicultural de Okubo e sua obsessão pela atenção aos detalhes — uma casa onde as coisas são vistas com clareza.
O que Okubo viu com clareza foi uma lacuna de preços no mercado de joias. As joias de fast fashion eram baratas, mas descartáveis. As joias de design eram bonitas, mas proibitivamente caras. Havia muito pouco no meio termo — peças acessíveis feitas com materiais de qualidade que você pudesse usar todos os dias sem se preocupar com elas se quebrando ou deixando sua pele verde.
Ela lançou a Maison Miru como uma marca de e-commerce direto ao consumidor, usando o mesmo pensamento de produto que a serviu no eBay. Cada peça foi projetada para funcionar como parte de um sistema coordenado — o que ela chama de conceito de "paleta" — para que os clientes pudessem misturar peças sem se preocupar se elas combinavam. Isso reduziu a ansiedade na tomada de decisão e aumentou o valor médio dos pedidos, pois cada compra levava naturalmente a outras complementares.
O avanço do Nap Earring
O produto que colocou a Maison Miru no mapa foi deceptivamente simples: brincos com tarraxas planas.
As tarraxas de brincos tradicionais espetam a pele quando você se deita. Qualquer pessoa que já adormeceu usando brincos conhece o desconforto. Okubo ouviu essa reclamação repetidamente da comunidade de piercing — pessoas que tinham vários furos na orelha e queriam deixar suas joias o tempo todo.
Sua solução foi o "nap earring" (brinco de cochilo), projetado com pinos de tarraxa plana normalmente usados para piercings de cartilagem, em vez dos fechos convencionais tipo borboleta ou de pressão. O resultado foi um brinco confortável o suficiente para ser usado 24 horas por dia, 7 dias por semana, inclusive durante o sono.
Isso não foi uma inovação técnica massiva. Os pinos de tarraxa plana já existiam. Mas Okubo fez algo que os engenheiros fazem bem e os designers de moda costumam ignorar: ela ouviu uma dor do usuário e a resolveu com a tecnologia existente aplicada em um novo contexto. O ajuste do produto ao mercado (product-market fit) foi imediato.
Os brincos de cochilo viralizaram. Não por meio de campanhas publicitárias pagas ou acordos com influenciadores, mas pelo boca a boca de pessoas que genuinamente amavam usá-los. Quando seu produto resolve um problema real, seus clientes se tornam seu departamento de marketing.
Bootstrapping através do reinvestimento
Okubo nunca aceitou financiamento externo. Em vez disso, ela seguiu uma estratégia disciplinada de reinvestimento — cada dólar de lucro voltava para o negócio. Novos materiais. Melhor fabricação. Linhas de produtos expandidas. A abordagem significou um crescimento mais lento do que um concorrente financiado por capital de risco poderia alcançar, mas também significou que ela manteve a propriedade total e o controle criativo.
Essa disciplina de bootstrapping exigia algo com que muitos fundadores de primeira viagem lutam: uma compreensão clara de onde vinha o dinheiro e para onde ele estava indo. Okubo usou painéis financeiros para monitorar o fluxo de caixa em tempo real, acompanhando quais produtos geravam mais receita e quais retinham capital excessivo em estoque.
Uma percepção crítica veio do exame de seus custos de manutenção de estoque. Ela descobriu que designs mais antigos estavam prendendo dinheiro que poderia ser aplicado em produtos novos e de melhor desempenho. Os dados a levaram a descontinuar SKUs (unidades de manutenção de estoque) de baixo desempenho — uma decisão que liberou capital de giro e melhorou as margens.
Este é o tipo de decisão que separa os negócios que sobrevivem dos negócios que escalam. Isso exige visibilidade financeira honesta, não intuição.
A Mentalidade de Engenharia em Produtos de Consumo
O que torna a abordagem de Okubo distinta é como ela aplica o pensamento sistêmico a uma indústria tradicionalmente impulsionada pela intuição. Sua linha de produtos opera como um sistema modular. Cada peça é projetada para funcionar de forma independente, mas também para se integrar perfeitamente com outras peças da coleção. Isso é o pensamento de arquitetura de software aplicado a produtos físicos.
Os benefícios são práticos:
- Para o cliente: Menos fadiga de decisão. Compre qualquer peça e ela funciona com o que você já possui.
- Para o negócio: Maior valor de tempo de vida do cliente (LTV). Cada compra cria um caminho natural para a próxima.
- Para as operações: Gestão de estoque simplificada. Componentes modulares compartilham materiais e processos de fabricação.
Essa abordagem sistemática se estende aos materiais. Okubo se comprometeu a converter 100% de sua coleção para "metais de alto desempenho" — titânio de grau médico e materiais hipoalergênicos semelhantes. A mudança abordou tanto um ponto de dor do cliente (sensibilidade da pele) quanto um objetivo de sustentabilidade (metais de alto desempenho duram mais e não acabam em aterros sanitários).
Ela reforçou esse compromisso por meio de iniciativas como o Earth Day Earring Exchange, onde os clientes podiam trocar joias oxidadas de qualquer marca por novas peças da Maison Miru. Foi simultaneamente um programa de sustentabilidade, uma ferramenta de aquisição de clientes e uma declaração de marca.
Inclusividade como Estratégia de Negócios
A experiência de Okubo como alguém que se sentia uma estranha — birracial, transitando entre tecnologia e moda, culturalmente entre múltiplos mundos — moldou a identidade da marca Maison Miru. O slogan "for her, for him, for them, for everyone" não é apenas linguagem de marketing. Reflete uma decisão genuína de posicionamento de mercado.
Ao projetar peças de gênero neutro em uma ampla gama de estilos, a Maison Miru expandiu seu mercado endereçável além da categoria tradicional de joias femininas. Esta é tanto uma decisão de negócios quanto uma decisão de valores. Uma marca que atende a todos tem um mercado endereçável total (TAM) maior do que uma que atende a apenas um grupo demográfico.
O posicionamento inclusivo também cria uma lealdade de marca mais forte. Clientes que se sentem vistos por uma marca tornam-se defensores. Em uma era onde as marcas de consumo vivem e morrem pelo engajamento orgânico nas redes sociais, essa defesa vale mais do que qualquer orçamento de publicidade.
Lições para Fundadores com Recursos Próprios (Bootstrapped)
A jornada de Okubo oferece vários princípios transferíveis para qualquer pessoa que esteja construindo um negócio de produtos sem financiamento externo.
Resolva um Problema Real
O brinco "nap earring" teve sucesso porque abordou um desconforto físico genuíno. Não uma necessidade hipotética. Não um problema fabricado pelo marketing. Algo real que pessoas reais experimentavam diariamente. As melhores ideias de produtos surgem ao prestar muita atenção a reclamações que os produtos existentes ignoram.
Use sua Trajetória Não Tradicional como Vantagem
Okubo não tinha credenciais na indústria da moda. Ela tinha experiência em gestão de produtos na área de tecnologia. Isso acabou sendo mais valioso — ela pensava em sistemas, jornadas de usuário e iteração baseada em dados. Seja qual for a sua formação, as habilidades que você traz de fora de um setor costumam ser mais valiosas do que as habilidades que os especialistas internos consideram garantidas.
Reinvista os Lucros Deliberadamente
O bootstrapping não significa crescer lentamente por padrão. Significa tomar decisões intencionais sobre o destino de cada dólar. A disposição de Okubo em descontinuar produtos de baixo desempenho e redirecionar capital para os vencedores é o tipo de disciplina que transforma um negócio de estilo de vida em uma marca em crescimento.
Construa Produtos como Sistemas
O conceito de paleta — onde cada peça funciona com todas as outras peças — cria um valor composto. Cada novo produto fortalece a coleção existente em vez de competir com ela. Isso é pensamento modular e funciona em qualquer categoria de produto.
Deixe seus Clientes Fazerem o Marketing para Você
O crescimento da Maison Miru ocorreu principalmente por meio do boca a boca orgânico. Quando seu produto resolve genuinamente um problema, clientes satisfeitos o compartilham voluntariamente. Isso é mais barato e mais crível do que a aquisição paga, mas só funciona se o produto realmente entregar o que promete.
A Base Financeira de Negócios Criativos
A capacidade de Okubo de autofinanciar a Maison Miru baseou-se em uma habilidade pouco glamorosa: clareza financeira. Ela conhecia seus números. Ela acompanhava os custos de estoque, monitorava o fluxo de caixa em tempo real e tomava decisões baseadas em dados sobre quais produtos manter e quais descontinuar.
Para qualquer fundador que esteja construindo um negócio de produtos — seja joias, software ou qualquer coisa intermediária — essa visibilidade financeira não é opcional. É a diferença entre tomar decisões estratégicas de reinvestimento e ficar sem dinheiro porque você não percebeu um problema até que fosse tarde demais.
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